Estudo sobre o livro de Eclesiastes

019 – Eclesiastes – Não tá fácil pra ninguém

Publicado em Introdução ao Antigo Testamento no dia 21 de setembro de 2012

Eclesiastes

Introdução ao Livro de Eclesiastes – Não tá fácil pra ninguém

O livro de Eclesiastes, tal como Jó, recusa-se a dar respostas fáceis às questões difíceis da vida. Tal é o pessimismo em suas páginas que muitos estudiosos questionam a ortodoxia do autor e até mesmo a canonicidade do livro.

O nome Eclesiastes vem da tradução para o grego do nome hebraico que consta no primeiro verso do livro: קֹהֶ֣לֶת (qōheleṯ). O nome qōheleṯ vem da raiz da palavra qahal que significa “aquele que convoca uma assembleia” provavelmente com o intuito de pregar para ela, daí algumas traduções deste livro para “O Pregador”.

A autoria é tradicionalmente atribuída a Salomão em virtude dos dois primeiros versos do livro, mas desde a Reforma, alguns estudiosos protestantes datam Eclesiastes a uma época posterior a Salomão. Além disso, o termo “filho de Davi” pode indicar qualquer descendente do rei Davi e não necessariamente Salomão. Outro aspecto que depõe contra a autora salomônica é a utilização de um pseudônimo, e, a afirmação em 1:16 e 2:9 de que ele ultrapassou todos os reis que governaram Jerusalém antes dele não faria muito sentido se Davi fosse o único antecessor.

A autoria salomônica não é totalmente descartável, entretanto os argumentos contrários são suficientes para termos cautela ao quanto ao autor de Eclesiastes. O uso de qōheleṯ na terceira pessoa pode sugerir que o autor anônimo se refira a Salomão. E, neste caso, sendo qōheleṯ Salomão o autor do livro poderia ter vivido em uma época posterior.

Para Eclesiastes a sabedoria convencional era inadequada à realidade, pois esta tentava predizer um futuro infalível como resultado exclusivo da conduta, seja dos sábios seja dos tolos. A justiça retributiva era o maior expoente desta corrente de pensamento.

Estrutura de Eclesiastes

O livro de Eclesiastes está estruturado da seguinte maneira:

  • Introdução – 1:1-11
  • Problemas e soluções da satisfação – 1:12 a 3:15
    • Problema: a satisfação não pode ser encontrada – 1:12 a 2:23
    • Solução: a satisfação não pode ser procurada – 2:24 a 3:15
  • Problemas e soluções da frustração – 3:16 a 7:29
    • Problema: Frustrações são inevitáveis – 3:16 a 6:12
    • Solução: Frustrações não podem ser evitadas – 7:1-29
  • Diretrizes para um projeto de vida – 8:1 a 12:8
    • Viver sob a autoridade, mas não esperar que o governo resolva todos os seus problemas – 8:1-9
    • Viver pelo principio da retribuição, mas não esperar seus resultados nessa vida – 8:10-14
    • Não querer todas as respostas – 8:15-17
    • Este mundo só oferece a morte – 9:1-6
    • Desfrutar a vida que Deus ofereceu – 9:7-10
    • Esperar o inesperado – 9:11-12
    • A sabedoria é melhor do que a força – 9:13 a 10:20
    • Ter prudência sem ficar inerte – 11:1-6
    • Não esperar a velhice para saber acerca da visão de vida correta – 12:1-8
  • Questões finais – 12:9-14

O objetivo da literatura de sabedoria é orientar a forma de pensar e não o que pensar. Por isso sua estrutura e organização não seguem os padrões dos escritos filosóficos do ocidente.

Na introdução o autor apresenta o problema e sugere que nada debaixo do sol dá sentido à existência. Deus está distante e não influencia. Após apresentar algumas origens de satisfação ele as rejeita apontando outro panorama. No trecho de 2:28 a 3:15 o Pregador diz que não há motivos para se adotar uma visão pessimista, pois pode-se aproveitar a vida como uma dádiva de Deus.

No parágrafo de 3:1-8 Eclesiastes mostra, por meio de antíteses, que o homem não possui o controle das etapas da vida, e a segurança da vida só pode ser firmada em Deus. O texto de 3:16 a 7:29 aborda a facilidade da aplicação da sabedoria em uma vida sossegada, mas como agir quando surgem as adversidades? Neste trecho o Pregador utiliza exemplos comuns que todas as pessoas enfrentam. A abordagem é diferente da do livro de Jó, pois dificilmente conhece-se alguém que sofreu tanto quanto ele. A conclusão é que não é possível evitar as dificuldades e problemas da vida.

O capítulo 7 explica que quando a visão de mundo está fundamentada em Deus é possível aceitar tanto a prosperidade quanto a adversidade procedentes de Deus. O Pregador não está preocupado com a causa, neste caso Deus, mas com o caráter adaptativo que a adversidade gera nos indivíduos cuja cosmovisão está em Deus.

Na última parte o autor sugere um plano de vida abordando, nos capítulos 8 e 9, as expectativas de vida ajustadas para a cosmovisão centralizada em Deus. O capítulo 10 evidencia os resultados de uma atitude insensata. O capítulo 11 destaca a cautela que o indivíduo deve ter na vida e ressalta a responsabilidade que cada um tem sobre suas ações. O capítulo 12, por meio de alegorias e metáforas estimula o leitor à ação imediata.

 

Propósito e conteúdo

O livro de Eclesiastes aborda os seguintes assuntos:

  • Não devemos esperar nenhuma satisfação na vida.
  • Todas as etapas da vida devem ser aceitas.
  • A vida é repleta de frustrações.
  • Só é possível aproveitar a vida tomando como ponto de partida a Deus.

O argumento do livro é mostrar que não existe nada que possa trazer sentido à vida, pois a morte ao final é certa. Os problemas serão inevitáveis e não haverá respostas simples que satisfaçam os mistérios da vida.

A vida deve estar fundamentada em Deus, pois os prazeres são passageiros, embora possam ser aproveitados como dons divinos. A vida não segue um roteiro preestabelecido de acordo com a justiça retributiva, isto é, todos experimentarão bons e maus momentos. As fatalidades, embora desagradáveis, podem ajudar a progredir a fé. Apesar do aparente pessimismo do livro, sua conclusão ressalta a atitude positiva do qōheleṯ ao estabelecer a vida em Deus

 

O principio da retribuição: quarta parte

Os principais trechos de Eclesiastes que tratam sobre o princípio da retribuição são 3:16-22 e 8:10-14. A ideia aqui é aceitar este princípio na teoria, mas ter a consciência de que ele não pode fornecer uma receita infalível de sucesso nem pode explicar a situação atual de uma pessoa, seja para o bem, seja para o mal.

No livro, o  qōheleṯ não teve uma resposta definitiva sobre o destino dos justos e injustos nesta vida, e podemos aplicar o princípio da revelação progressiva. Deus recompensa os justos e pune os injustos definitivamente na eternidade, o que prova que  o princípio da retribuição é verdadeiro, mas não pode ser plenamente aplicado nesta vida.

 

Prazeres e devoção

O princípio de Eclesiastes é mostrar que “debaixo do sol” não há satisfação, mas fala sobre aproveitar a vida e temer a Deus. Entretanto, esta abordagem não sugere que tudo seja abandonado para correr atrás do prazer. E mais, a procura pela satisfação não envolve necessariamente a satisfação pessoal, mas conceber que todas as coisas procedem de Deus.

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22 respostas para “36 – Ageu – Mãos à obra!”

  1. Arthur Barros disse:

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    Valeu pela audiência!

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  11. e muito rico esses estudos,tenho aprendido muito, e tem me enriquecido.Deus vos abençoe.

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  16. Maressa Braga disse:

    Fiquei com uma dúvida: relendo Esdras 1-6, eu entendi que muitas pessoas voltaram para reconstruir o templo por permissão do rei Ciro. Passados 7 meses de adaptação, começaram a reconstruir. O problema foi o veto do rei Artaxerxes, com essa ordem o povo parou a construção e isso levou ao desânimo (medo de represália caso desobedecessem ao rei Artaxerses). Aí que Deus levantou Ageu, para chamar a atenção de volta para o templo, pois eles estavam ha mais de 8 anos naquele lugar com as obras paradas. Inicialmente o povo se animou pela liderança política de Zorobabel e espiritual de Josué, mas depois eles se desanimaram porque estavam desobedecendo a ordem de Artaxertes (mesmo que esse não estivesse mais no poder) e isso poderia acarretar a ira do império Persa. Tanto que em Ag 2:4-5 Deus os exorta a serem corajosos porque Ele estava com eles – isso pra mim evocou esse pensamento que o povo não desanimou porque não lembravam dos tempos de glória dos antepassados ou pela seca descrita em Joel e sim porque estavam com medo de desobedecer a ordem do Artaxerxes e serem atacados pelo então rei Dario. Que tal?

  17. Na verdade a terra ficara fora do controle hebreu durante muito tempo, então outros pegaram o controle do lugar, que era muito ambicionado pois era passagem entre o norte, Babilônia e o Sul Egito.

    Quando os reis persas dão permissão de reconstruírem tudo galera que já estava lá tinha certeza de que perderiam a boquinha comercial-financeira que tinham até então.

    Por isso, num determinado momento, eles tem que reconstruir os muros com uma mão e com a outra segurar uma espada caso alguém tentasse atacá-los.

    Naquela época a coisa também girava em torno de poder, influência e dinheiro.

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  19. Sua explicação é muito esclarecedora. Obrigada.

  20. gostei desta passagem muito edificante

  21. O que me chamou atenção, foi a advertência de Deus para que o seu povo viesse, desperta e entender que nada é mais importante, que sua presença. Quando colocamos Deus no controle de tudo, não tem como as coisas não certo. Gostei muito do seu esclarecimento, muito interessante, que Deus continue abençoando, amém.

  22. |Hoje estarei pregando no livro de Ageu, gostei muito dos comentários e da explanação, Deus continue o abençoando. Luis Dalmoneki

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