Estudo sobre o livro de Ester

014 – Ester – Nos bastidores da aliança

Publicado em Introdução ao Antigo Testamento no dia 17 de julho de 2012

Ester

Introdução ao Livro de Ester – Nos bastidores da aliança.

O livro de Ester, devido ao seu estilo literário e trama cinematográfica, gerou muitos debates acerca de sua canonização na Bíblia Hebraica.

A narração está ambientada em Susã, capital do Império Persa, e não utiliza em nenhum momento o termo Deus ou Javé. De fato, a história descrita neste livro foi e continua sendo o enredo básico de muitos filmes e séries de televisão em consequência da estrutura de sua narrativa e construção dos personagens. Este livro retrata a jovem estrangeira órfã que se casa com o rei, vítima da manipulação de todos e sempre contrariado por sua rainha. Esta jovem descobre o plano do vilão para matar seu povo e arquiteta um contra golpe para salva-lo. Ao final da trama o vilão morre na própria armadilha que construíra, e seu tutor é elevado ao cargo de grande responsabilidade no reino, tomando o antigo lugar do vilão. Após longo debate sobre sua canonicidade, o livro passou a constar na lista dos livros inspirados divinamente.

Alguns estudiosos consideram esta trama espetacular demais para ser real, muito embora a realidade possa ser, por vezes, muito mais espetacular. A maioria aceita que, embora o livro tenha realmente uma trama novelesca, ele está repleto de elementos históricos, difíceis de negar. Ademais, o livro contém detalhes do sistema administrativo persa, que apenas Mardoqueu e Estar poderiam saber. Outros aspectos administrativos citados são os seguintes:

  • conselho de sete nobres – 1:14
  • sistema postal do império – 3:13; 8:10
  • crença em dias grandiosos – 3:7
  • manutenção de registros reais – 2:23; 6:1

O verso 10:2 deixa bem claro a intenção do livro de Ester, que foi registrar, por meio da bravura de Mardoqueu, o livramento e permenência do povo judeu. Para narrar estes fatos o autor recorreu a registros históricos de fontes extra canônicas, ou seja, mesmo que o livro não tenha intenção de ser um relato histórico per si, ele está baseado em fatos históricos registrados em outras fontes e aponta para a precisão de dados que o autor se preocupou em pesquisar.

Mardoqueu foi um dos nomes cogitados como possíveis autores do livro, entretanto há poucas evidências que sustentem esta posição, por isso a autoria anônima é unanimidade entre os especialistas.

A história narrada no livro se passa na Pérsia durante o século V a.C., portanto durante o exílio babilônico e alguns anos antes da viagem de Esdras e Neemias a Jerusalém. Esta informação nos leva à conclusão de que provavelmente o livro foi escrito num período posterior a esta época. Podemos datar a produção do livro antes século II a.C., devido à análise do hebraico usado em sua escrita.

Estrutura de Ester

O livro de Ester pode ser estruturado da seguinte maneira:

  • Ester é feita rainha da Pérsia – 1:1 – 2:20
  • Hamã conspira o extermínio dos judeus – 2:21 – 3:15
  • Ester lidera a defesa do seu povo – 4:1 – 5:8
  • A queda de Hamã – 5:9 – 7:10
  • O triunfo dos judeus sobre seus inimigos – 8:1 – 10:3

Os especialistas em literatura bíblica concordam que o livro está estruturado sob o formato literário de reversão, isto é, a trama evolui no sentido contrário ao esperado e, no seu clímax, há a inversão da situação presente. Este padrão é verificado na exaltação de Mardoqueu, a queda de Hamã e a vitória final dos judeus contra os persas.

O livro de Ester também contém uma dose de ironia. A ironia acontece quando o leitor possui informações que um dos personagens da trama não tem. Este recurso literário é empregado, por exemplo, quando Hamã vai ao palácio do rei pedir permissão para executar Mardoqueu, porém, o rei pede uma opinião sobre um modo de lhe conceder grande honra. Hamã pensa que o rei queria honrá-lo, quando na verdade estava se referindo a Mardoqueu. O recurso da ironia chega ao seu ponto mais elevado quando Hamã concede tal honra a Mardoqueu, a quem queria assassinar e acaba morrendo na própria armadilha que preparara para Mardoqueu.

O recurso da ironia e reversão no livro de Ester ressaltam o controle de Javé sobre a história e ensina que o plano da sua aliança não pode ser detido.

Propósito e conteúdo

Basicamente o livro de Ester trata dos seguintes assuntos:

  • Javé age em prol da aliança mesmo nos bastidores da história
  • O plano de Javé para o povo da aliança não pode ser detido
  • As conspirações dos ímpios são condenadas

Durante a história, Israel havia recebido de Javé diversos livramentos miraculosos, tais como os dez sinais, a libertação da Egito, a abertura do Mar Vermelho, a queda dos muros de Jericó e até mesmo o retorno dos judeus exilados na Babiblônia. Contudo, no enredo de Ester, a mão miraculosa de Javé parece estar encolhida. Porém, não pode ser apenas coincidência a insônia de um rei e a descoberta quase acidental da trama para eliminar os judeus.

No desenrolar da narrativa a esperança, fundamentada nas profecias de libertação e julgamento dos inimigos (Zc. 1:21), ainda permeava a vida e o pensamento do povo judeu, mesmo que não visse tão claramente a mão de Javé como nas ocasiões anteriores.

Portanto, mesmo que os métodos de Javé mudem na história, seu propósito continua o mesmo, e seu povo reconhece sua soberania no livramento do extermínio e preservação da aliança que fizera com seus antepassados.

Purim

O purim é uma festa de comemoração ao livramento dado por Javé aos judeus que habitavam a Pérsia no período de retorno a Jerusalém. Alguns especialistas afirmam que o livro de Ester foi escrito para legitimar uma festa que não nasceu em solo palestino.

O nome “Purim” é adequado, pois significa sorte, indicando que o oivramento do Senhor não aconteceu por algum modo visivelmente miraculoso, mas de uma forma que muitos considerariam um acaso, porém esta festa legitima o ensino da Providência divina, indicando que Deus age tanto de modo visivelmente miraculoso quanto de modo aparentemente casual.

O povo de Deus

Nós estudamos em Gênesis a escolha de Abraão e sua descendência para o propósito do anúncio do nome de Javé entre as nações. Porém, conforme observamos, o povo hebreu falhou neste intento.

No livro de Ester o livramento de Javé não foi dado para que as nações o conhecessem, mas a intenção foi fortalecer a fé de quem cria na soberania de Deus, em detrimento do ceticismo de alguns.

Embora Deus quisesse que seu povo mantivesse um relacionamento com ele, no período pós-exílio, a atribuição do povo judeu de revelar Javé ao mundo perdeu sua importância e, aqui, temos um desvio de paradigma, quando o povo judeu passa a ser um povo exclusivista.

Entretanto, mesmo diante desta mudança de paradigma, o livro de Ester mostra que, indiretamente, o nome de Javé foi anunciado, conforme observamos em 6:13, onde a esposa de Hamã reconheceu que os planos do seu marido não seriam concretizados em virtude da origem judaica de Mardoqueu.

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21 respostas para “36 – Ageu – Mãos à obra!”

  1. Arthur Barros disse:

    Milho, você pretende concluir a análise dos livros do antigo testamento, aqui, no seu próprio site? Abração.

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  6. Sim, Arthur. Os estudos já estão prontos, e vou postando aos poucos. É que estou meio atarefado com alguns trabalhos da facu. Mas vou colocando assim que tiver um tempo.

    Valeu pela audiência!

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  11. e muito rico esses estudos,tenho aprendido muito, e tem me enriquecido.Deus vos abençoe.

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  16. Maressa Braga disse:

    Fiquei com uma dúvida: relendo Esdras 1-6, eu entendi que muitas pessoas voltaram para reconstruir o templo por permissão do rei Ciro. Passados 7 meses de adaptação, começaram a reconstruir. O problema foi o veto do rei Artaxerxes, com essa ordem o povo parou a construção e isso levou ao desânimo (medo de represália caso desobedecessem ao rei Artaxerses). Aí que Deus levantou Ageu, para chamar a atenção de volta para o templo, pois eles estavam ha mais de 8 anos naquele lugar com as obras paradas. Inicialmente o povo se animou pela liderança política de Zorobabel e espiritual de Josué, mas depois eles se desanimaram porque estavam desobedecendo a ordem de Artaxertes (mesmo que esse não estivesse mais no poder) e isso poderia acarretar a ira do império Persa. Tanto que em Ag 2:4-5 Deus os exorta a serem corajosos porque Ele estava com eles – isso pra mim evocou esse pensamento que o povo não desanimou porque não lembravam dos tempos de glória dos antepassados ou pela seca descrita em Joel e sim porque estavam com medo de desobedecer a ordem do Artaxerxes e serem atacados pelo então rei Dario. Que tal?

  17. Na verdade a terra ficara fora do controle hebreu durante muito tempo, então outros pegaram o controle do lugar, que era muito ambicionado pois era passagem entre o norte, Babilônia e o Sul Egito.

    Quando os reis persas dão permissão de reconstruírem tudo galera que já estava lá tinha certeza de que perderiam a boquinha comercial-financeira que tinham até então.

    Por isso, num determinado momento, eles tem que reconstruir os muros com uma mão e com a outra segurar uma espada caso alguém tentasse atacá-los.

    Naquela época a coisa também girava em torno de poder, influência e dinheiro.

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  19. Sua explicação é muito esclarecedora. Obrigada.

  20. gostei desta passagem muito edificante

  21. O que me chamou atenção, foi a advertência de Deus para que o seu povo viesse, desperta e entender que nada é mais importante, que sua presença. Quando colocamos Deus no controle de tudo, não tem como as coisas não certo. Gostei muito do seu esclarecimento, muito interessante, que Deus continue abençoando, amém.

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